Estranho familiar
Atualizado: 10 de out. de 2025

Às vezes, o que mais incomoda em alguém não tem a ver com essa pessoa, mas com o espelho que ela se torna. Há algo de profundamente perturbador em se reconhecer onde não se gostaria. É o que Freud chamou de unheimlich: o “estranho familiar”. Aquilo que nos é íntimo, mas aparece deslocado, fora de lugar e justamente por isso causa estranhamento. O que o outro desperta não é inédito; é apenas algo nosso que se manifesta de um modo que já não conseguimos admitir como parte de quem somos.
Há pessoas que parecem nos provocar uma rejeição imediata. Um ranço, um incômodo, um “não fui com a cara”. Mas quando olhamos com um pouco mais de honestidade, talvez percebamos que o incômodo não é sobre o outro, mas sobre o que ele representa. O que me irrita no outro, muitas vezes, é o que eu não suportei em mim.
É através do outro que partes recalcadas se tornam visíveis - e é por isso que a convivência pode ser tão difícil. Porque estar com o outro é, inevitavelmente, ser lembrado de si.
O estranho familiar é esse paradoxo: aquilo que me é próprio, mas que me aparece de fora. É o medo travestido de antipatia, o desejo disfarçado de raiva, a culpa que se confunde com desprezo. Não há nada mais íntimo do que aquilo que me escapa.
Quando o inconsciente fala através do incômodo, talvez o mais honesto seja se perguntar: o que, exatamente, dessa pessoa, toca algo em mim?
Reconhecer o estranho é reconhecer-se. É admitir que a alteridade não está apenas no outro, mas também dentro. É compreender que todo encontro é também um reencontro: com o que foi recalcado, negado, esquecido. O outro, afinal, não é apenas alguém diante de nós, mas uma revelação do que somos quando deixamos de ser apenas o que gostaríamos de ser.


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