Você realmente busca pelo o que diz desejar?
Atualizado: 10 de out. de 2025

Talvez o maior engano sobre o desejo seja imaginar que ele é simples, linear, transparente. Que basta querer para ir atrás. Mas, na maior parte das vezes, a gente deseja e, ao mesmo tempo, foge. Há um tipo de movimento curioso em nós: buscamos o que dizemos querer, mas escolhemos caminhos que garantem que não vamos encontrar. Atravessamos a vida dizendo que queremos amar, mas escolhemos o inatingível. Dizemos que queremos mudar, mas repetimos o mesmo roteiro. Queremos o novo, mas só dentro do que já conhecemos. O inconsciente é um diretor retado - ele encena o desejo, mas raramente entrega o final que o consciente espera.
Freud dizia que há uma satisfação em cada sintoma. É por isso que às vezes a dor é familiar e o alívio, insuportável. A repetição, ainda que doa, oferece um tipo de segurança: nela, sabemos o papel que ocupamos. Buscar o que se deseja, de fato, exige atravessar o conforto do conhecido. E é aí que muita gente desiste - não porque não quer o desejo, mas porque teme o que pode perder ao encontrá-lo.
Lacan lembrava que o desejo não é o objeto que se persegue, mas o próprio movimento de persegui-lo. Desejar é estar em falta e é dessa falta que o sujeito se constitui. Talvez por isso, realizar o desejo possa ser tão perigoso: se ele se cumpre, o que resta? A gente não teme tanto o fracasso quanto o vazio que vem quando o sonho se realiza e, ainda assim, nada muda.
Nietzsche escreveu que o homem prefere desejar o nada a nada desejar. Porque é no desejar que ele se sente vivo. E a psicanálise diria o mesmo, mas com uma torção: é preciso escutar o que há por trás do desejo. Escutar o que ele disfarça, o que ele encobre, o que ele tenta preencher. Nem tudo o que se quer é, de fato, o que se deseja.
Então, talvez a pergunta não seja se você tem coragem de ir atrás do que quer, mas se está disposto a descobrir por que quer o que quer. Aí o desejo deixa de ser fuga e passa a ser encontro.


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